Competição Interna, uma ideia

Mais uma vez, o assunto é o desagrado dos adeptos e praticantes da nossa modalidade, em relação aos resultados internacionais que se obtêm e talvez mais ainda pelos métodos e critérios de selecção.

Nos últimos anos o sistema de selecção de atletas para a selecção nacional baseia-se, principalmente, na realização de testes na água, em 1x e 2-. Em tempos, estes testes eram realizados em Março e Abril, com aferições ergométricas nos meses de Inverno. Nesses tempos deu-se alguma importância ao factor físico, para qualificação para os trabalhos da selecção, juntando-se os atletas do ano anterior. Depois chegava-se a Março e Abril, com testes de fundo e velocidade, e definia-se o grupo de trabalho, sendo os testes na água os mais decisivos e importantes.

Outro aspecto a mencionar são as participações a custas e preparação próprias de equipas e atletas, extra-selecção, a provas internacionais, com a devida autorização da Federação Portuguesa de Remo (FPR).
Estas participações continuaram a acontecer nos últimos anos, também com a autorização da actual FPR. Participações de atletas não convocados para a selecção ou simplesmente que nem se candidatavam através dos critérios definidos. As razões destas participações, por atletas extra-selecção, eram (e são) principalmente a confiança dos próprios atletas no seu valor. Muitos destes não se candidatam à selecção por não acreditarem e não confiarem nos técnicos nacionais, assim como nos seus métodos. Acabando depois por tentarem participar nas Taças e Campeonatos do Mundo, extra-selecção. Participações essas que chegam a dar melhores resultados que a própria selecção nacional. Muitas vezes, antes dos testes já há atletas com ideias de constituir equipas para depois se apresentarem/candidatarem à FPR para participação internacional.

A discussão entre os métodos e critérios para se encontrar os melhores atletas nacionais é longa e antiga. Uns dizem que na água é que interessa, mesmo sem um nível ergometrico e físico internacional, outros dizem que sem um nível ergometrico e físico de nível internacional não serve de nada, mesmo que se seja muito bom remador. A verdade é que quem vence é quem chega primeiro e a nossa competição é na água, não no ergometro. Mas também é verdade quem ganha não é quem rema melhor ou mais bonito, mas quem é mais rápido. Não vou entrar nessa discussão.

Passando ao que interessa, parto do princípio que o nosso (remadores, treinadores, adeptos, dirigentes, etc) objectivo global é obter os melhores resultados internacionais e elevar o nível nacional. Resultados atingidos por nós mesmos ou por qualquer outro, quer sejam por equipas preparadas pelo seleccionador ou pelo treinador do clube. Parto do principio, da humildade e gosto pela modalidade, que o que nos interessa é que cheguemos (o país) ao topo. Ou seja, temos de ser humildes ao ponto de poder ter de admitir que há melhor que nós, seja a remar, a dar treinos, a preparar ou a “puxar”.

Partindo deste pressuposto, que não parece ser comum a todos, gostaria de sugerir um modelo selectivo para as nossas equipas nacionais, baseado na competição interna, para chegar às melhores equipas. O nível físico não será incluído, o qual acho muito importante e que poderia entrar numa segunda versão deste modelo.

Em primeiro lugar, qualquer atleta que quisesse entrar neste processo teria de participar nos testes na água da FPR. Esta é a primeira forma de competição interna que pode existir. Os atletas competem entre si, nos 1x e 2-, e facilmente se encontra as equipas e atletas mais rápidos.
Aqui a FPR convocaria quem bem entendesse, pelos critérios que definisse, com ou sem definição. A vantagem estaria do lado da FPR em “ficar” com os atletas mais rápidos (e mais fortes!?!) para a equipa nacional. Ou pelo menos aqueles que entendesse serem os mais aptos para os seus objectivos: ganhar.

A segunda fase incluiria a definição pública da FPR de quais as equipas a constituir, em termos de classe de barco. Por exemplo, no 4- e 2x P.L.
Este ponto poderia ser efectuado antes dos testes.

Os técnicos nacionais iriam agora trabalhar os atletas convocados, da melhor forma que entendessem e pelos métodos que entendessem. E os atletas não convocados, e seus treinadores, poderiam também trabalhar equipas, nas mesmas classes de barcos.
Se o objectivo fosse mesmo encontrar a melhor equipa e preparar o melhor possível as equipas, poderia-se começar desde logo uma colaboração: A equipa técnica nacional (E.T.N.) poderia abrir as portas às equipas dos clubes, para estas treinarem juntamente com as equipas nacionais, sempre cumprindo o plano de treinos da E.T.N. A selecção seria sempre privilegiada. Ou seja, os clubes poderiam deslocar os seus 4- e 2x- PL ao pocinho (ou Montemor) para treinarem lado-a-lado com as equipas nacionais, submetendo ambas a mais uma “competição interna”. Se a E.T.N. entendesse que este tipo de treinos não seria benéfico, então não os haveria.
De relembrar que as equipas de clubes teriam de ser compostas, sempre, por atletas que participaram nos testes. Equipas com atletas de um só clube ou mistas.

Numa terceira fase, colocar-se-ia a equipa nacional em teste, seleccionada e preparada pelo seleccionador nacional. Esse teste seria efectuado de preferência em ambiente neutro, entre a equipa nacional e as equipas de clubes. Este teste poderia ser efectuado numa das Taças do Mundo, ou mesmo em várias.
A FPR informaria quais as Taças do Mundo que iria participar e permitiria a equipas extra-selecção, constituídas por atletas que teriam participado nos testes, a participação nessas mesma Taças do Mundo.
O teste decisivo poderia ser a ultima taça do mundo, em Lucerna.
Esta seria a última e decisiva competição interna.

A equipa melhor classificada nesta prova seria a equipa a inscrever no Campeonato do Mundo, quer fosse a preparada pela E.T.N. quer fosse a preparada nos clubes. Se a equipa vencedora fosse de clube a FPR daria as mesmas condições que estavam previstas para a selecção, mas sem interferência nos métodos de treinos da equipa.

Assim participaria sempre a melhor equipa portuguesa. Implicaria, mais uma vez, a necessária humildade da FPR em, possivelmente, ter de admitir que o(s) clube(s) tinha(m) preparado melhor uma equipa. E vice-versa.

Permitiria aos clubes preparar equipas para participar nas Taças do Mundo e colocar em teste as equipas nacionais, acabando também com os hipotéticos boatos de que a equipa do clube A ou B é mais forte que a equipa nacional.

E com este modelo todos ganhariam, os atletas ganhariam mais experiência competitiva, mais motivação e certamente mais andamento. O nível de remo nacional iria aumentar e as alegrias (resultados internacionais) iriam aparecer.

Legendas:
1ª – Mahe e Lassi em Avis, um fundo lento competitivo

Outras noticias