Agosto 7, 2008
Eduardo Oliveira

Eduardo Oliveira
Entrevistámos um dos rostos do apuramento olimpico e que tem preparado com afinco os dois atletas do Sport Club do Porto. As perguntas foram feitas logo no dia do feito, mas só hoje pudemos publicar. Fique com esta entrevista, com um caracter mais técnico e descubra um pouco mais desta equipa.
Laststroke – Os atletas por ti treinados – Fraga, Mendes e Quesado – conseguiram recentemente alcançar marcas que podemos dizer que são históricas para o remo Nacional, em que método se baseia os teus treinos?
Eduardo Oliveira - No planeamento do treino desportivo várias são as valências que se têm de ter em consideração. De uma forma muito simplista, o volume, a intensidade e relação entre carga e recuperação bem como os meios / métodos utilizados são alguns exemplos que têm de estar constantemente presentes para responder aos objectivos propostos. Por outro lado, existem princípios metodológicos, pedagógicos e biológicos que nunca podem ser esquecidos durante esse processo. Todos os atletas adaptam-se de uma forma diferente ao mesmo estímulo induzido pela carga de treino. Partindo deste pressuposto, tivemos sempre presente um princípio fundamental que foi a individualização das cargas. Além disso, houve sempre muita comunicação entre ambas as partes (treinador-atleta-treinador).
LT – Os atletas que hoje conseguiram o apuramento Olímpico por pouco que não foram banidos do Projecto, como é que conseguiram lidar com as vicissitudes dos últimos tempos?
EO - O Pedro e o Nuno são dois atletas com uma motivação intrínseca e com uma orientação para a tarefa elevada. Para além disso, têm uma auto-confiança e uma crença enorme nas suas capacidades. Ao longo deste processo, eles tiveram sempre a consciência que com esforço e superação podiam alcançar os objectivos delineados no início do ciclo olímpico. Por outro lado, o apoio da família foi fundamental para ultrapassar determinadas adversidades.
LT – Falámos do Fraga e do Mendes, como os caracterizas como atletas e como ajustas o tipo de trabalho a cada um deles?
EO - Os melhores adjectivos para os caracterizar são: exigentes, perfeccionistas e realistas. Do ponto de vista físico e funcional, são dois atletas ligeiramente diferentes. Para dar resposta aos princípios anteriormente abordados, foram realizadas avaliações diagnosticas periódicas para avaliar a resposta ao estímulo induzido pela carga. Estas avaliações têm como objectivo determinar as capacidades dos atletas bem como avaliar o próprio processo de treino fornecendo ferramentas para se ajustarem as cargas, meios e métodos de treino. Durante este ciclo olímpico o diálogo sobre a metodologia de treino foi constante e isso também foi imprescindível para se determinarem os objectivos para cada dia, semana, mês, ano e ciclo olímpico. São atletas com muita sensibilidade sobre o treino e isso facilitou o processo. Não posso deixar também de dar uma palavra sobre o Paulo Quesado. É um atleta corajoso. Após ter sido expulso em 2005 juntamente com os colegas do 4X ficou muito abalado com a situação. No entanto, através da sua motivação conseguiu no nacional de ergómetro de 2006 realizar 5:56 e melhorar a sua marca anterior em 7 segundos. Devido a esse factor foi novamente chamado a integrar os planos da selecção nacional. È um atleta com uma elevada capacidade de trabalho e se estiver motivado pode fazer coisas fantásticas. É muito dedicado e bom companheiro de treino no SPORT, demonstrando vontade em treinar com os colegas do 2x nesta recta final de preparação para os JO para dar um carácter mais competitivo ao Pedro e Nuno.
LT – A estratégia de regata do Nuno e do Pedro tem sido sempre ir construindo a regata e fazer o último quarto de regata de forma fabulosa, isto só é possível em equipas mentalmente fortes, vocês também trabalham esta estratégia ou surge durante a regata?
EO - O Pedro e Nuno têm uma grande confiança em realizar as regatas desta forma. Surge de uma forma natural e através do treino pretende-se potenciar as capacidades condicionais e tácticas de forma a realizarem os 2Km no menor tempo possível. O treino é adaptado às características dos atletas tendo por base este princípio.
LT – Em que se baseou o treino para potenciar estas características?
EO - De uma forma geral, aumentar a potência muscular e trabalhar a velocidade do barco à máxima potência aeróbia. São atletas com uma capacidade aeróbia fantástica e o efeito cumulativo do treino é elevadíssimo permitindo melhorar componentes mais específicos do treino desportivo.
LT – Em que medida o papel dos outros técnicos envolvidos, o Rob e o Jorge Cardoso, foi determinante para o sucesso desta qualificação?
EO - O Jorge Cardoso é excelente profissional do Remo, dedicado, entusiasta e passa por ser uma imagem de marca do Sport Clube do Porto. Acima de tudo, é bom amigo e está sempre disponível para ajudar os seus atletas. O Rob é um homem honesto, altamente qualificado e também um excelente amigo. Ambos foram fundamentais no trabalho de equipa.
LT – Qual é a sensação de colocar dois atletas em Pequim?
EO - Fiquei emocionado por ver o esforço deles recompensado e muito feliz por eles pertencerem a elite mundial do Desporto e do Remo. Fiquei feliz por ver que um dos objectivos, um dos “sonhos” destes atletas e amigos foi conquistado com muito mérito e sacrifício. Foram sensações muito fortes que foram partilhadas pelos amigos próximos e familiares dos respectivos atletas. Acima de tudo foi bom ver que o objectivo em que sempre acreditamos foi obtido.
LT – Qual a expectativa em relação à participação nos jogos, qualquer lugar neste momento é um bom lugar ou há objectivos a cumprir?
EO - Terão sempre de existir objectivos. Em tudo o que eles fazem, quer no treino quer competição, há objectivos. O objectivo em termos de classificação é ficar nos 12 primeiros. Se dissecarmos este objectivo teremos objectivos mentais, técnicos, tácticos e físicos que são importantes para alcançar o objectivo final.
LT – Como vês o futuro do Remo Nacional da forma como está a ser conduzido? A única equipa que conseguiu o apuramento trabalhou fora do sistema, isso quer dizer que o sistema federativo não é o melhor, concordas?
EO - Esta pergunta vai ser respondida pelos clubes no dia das próximas eleições. Não sei qual conjuntura actual da FPR nas suas diversas vertentes. No plano desportivo, a única equipa que atingiu resultados propostos foi o 2xhpl. Isto é um facto e não um mito. Em Portugal existem bons atletas, treinadores e dirigentes. Tivemos bons atletas que não puderam completar este ciclo olímpico por motivos de expulsão ou exclusão e que também ainda podem dar boas garantias no futuro. Espero muito honestamente que voltem a integrar os planos da selecção nacional. Por outro lado, estar muito optimista pode significar ser pouco realista e isso pode ter afectado o percurso desportivo de algumas equipas nacionais. Digo isto porque as expectativas face aos resultados desportivos devem ser comedidas para não induzir desmotivação, apatia e negação.
Entrevista por Paulo Lourenço e Ricardo Cardoso
