Entrevista a João Oliveira

joaooliveira-ltComo começou a sua ligação ao remo?

Aprendi a remar com treze anos, na Mocidade Portuguesa. Em Lisboa, havia remo escolar, com aulas e treinos regulares e frequentes e disputadíssimas competições inter-escolas, em yolles. Eu remava pelo meu liceu, o Pedro Nunes, e treinávamos o ano inteiro, com enorme aplicação, na mira do troféu principal. Aprendemos muito cedo o que significa fazer parte de uma tripulação e o que é partilhar objectivos competitivos com vários companheiros.
Mais tarde, federei-me pelo Clube Ferroviário de Portugal, competindo durante muitos anos, ao mesmo tempo que ensinava na Escola de Remo de Lisboa da Direcção Geral dos Desportos e treinava tripulações do Clube.
Fui colaborador regular sobre Remo em diversos jornais nacionais e na RDP durante 14 anos. Fiz parte de uma Direcção federativa (1978-81). Ultimamente, tenho participado em regatas de veteranos (e, por vezes, em ”absolutos”), sempre pelo Ferroviário.

O Remo em Portugal não atravessa os melhores momentos, pelo menos em termos associativos e federativos. O que pensa da actual situação e quais as motivações que o levam a candidatar-se à presidência da FPR?

O desenvolvimento do Remo nos últimos anos tem estado longe de corresponder às potencialidades que hoje em dia encerra como modalidade de ar livre, multifacetada, atraente para múltiplos tipos de praticantes.
O empenho e a concentração de muitos remadores, técnicos e dirigentes na procura de rendimento competitivo têm saído defraudados no que toca a resultados na representação nacional.
A forma como a actual direcção conduziu a FPR descontentou a grande maioria dos clubes e os agentes individuais da modalidade, mantendo muita da melhor gente do Remo afastada de qualquer contribuição, a nível federativo, para o desenvolvimento do nosso desporto.
O caminho do desentendimento entre a Federação e o Remo precisa de ser substituído por uma via de entendimento fértil.
Numa união de pontos de vista e de vontades como não me lembro no Remo português, um grupo crescente de pessoas oriundas de clubes de Norte a Sul empenhou-se em promover essa mudança de caminho e instou-me persistentemente para que o acompanhasse na candidatura aos corpos sociais da FPR.
Reconheci que nessa plêiade de elementos com provas dadas na competição nacional e internacional, no exercício técnico e na gestão de colectividades e da própria Federação, está representada a vontade de uma enorme maioria dos clubes “que remam”.
As colectividades que, ao longo dos anos, mais me habituei a respeitar, pela sua actividade desportiva e associativa, estão quase todas unidas no movimento que se gerou para mudar a Federação.
Tornou-se-me claro que o Remo não poderia desperdiçar esta manifestação de disponibilidade para unir e catalisar capacidades dispersas, por parte de quem vive a modalidade vibrantemente.
Por isso aceitei o seu desafio, concordando que, com um passado no Remo, que já é longo e sem conflitos, talvez possa ajudar neste esforço de aproximar a Federação e os clubes. Não nego que também me atrai a perspectiva de integrar uma “tripulação” federativa motivada, competente e com objectivos bem definidos. Contudo, talvez o que mais pesa nesta decisão seja … a dívida de gratidão para com o Remo pelo que contribuiu para a minha educação desde há quarenta anos.

Que feitos positivos efectuou a presente direcção da FPR?

Tenho a noção de que a presente direcção privilegiou na sua acção um posicionamento regulamentador, muito empenhada em fazer cumprir as regras que têm sido elaboradas para a administração do desporto em geral.
Em matéria de desenvolvimento, procurou principalmente exteriorizar a imagem de participar em grandes projectos que transcendem o Remo.
Claro que as leis são para se cumprir e o Remo só tem a ganhar com o adiantamento do trabalho de organização interna que para tal seja necessário.
Por outro lado, o Remo não deve alhear-se de projectos em que possa participar com benefício, pelo que penso que a Federação fez bem em não se omitir de parcerias que a tal possam conduzir.
Contudo, quer-me parecer que, actuando deste modo, teve dificuldades graves no relacionamento com o “interior” do Remo. Terá, talvez, aparecido demasiado no papel do “intermediário” que impõe ao Remo ditames gerados noutras instâncias, sem cuidar de compreender os sentimentos e as necessidades dos clubes. Quando assim é, mesmo a eventual bondade das iniciativas de que é portadora sai prejudicada pelas reacções que se desencadeiam.

O que poderá trazer de novo para o Remo em Portugal?

A nossa eleição vai “Devolver o Remo aos Clubes”.
Este nosso lema não é um mero “slogan” eleitoral e a sua concretização significará um novo relacionamento da Federação com os clubes e com as associações regionais e de classe.
Passará a haver mais trabalho da Federação com as pessoas dos clubes e das associações, mais transparência, mais sinceridade e mais harmonia.
É que a Federação não se torna indispensável pela habilidade em fazer cumprir regulamentos. A Federação é indispensável a trabalhar com os clubes para que estes consigam, em conjunto, fazer as coisas inacessíveis a cada um separadamente. O trabalho da FPR é criar sinergismos, é fazer desabrochar potencialidades.
Deste modo, estou convicto de que, entre vários benefícios, traremos ao Remo a possibilidade material e organizativa de os clubes desempenharem melhor os seus papéis educativo e social; trará a capacidade de criar novos pólos de interesse para os que já remam e para a captação de novos praticantes; trará a intensificação da prática de modalidades de Remo que tirem partido da actual apetência para os desportos de ar livre, como o Remo no mar, os longos percursos em lagos e descidas de rios, o Remo associado ao turismo cultural; trará a melhoria do nível do enquadramento técnico; trará um ambiente mais propício à subida do nível competitivo das nossas representações externas.

Sabemos que nos últimos anos tem treinado e competido em provas nacionais pelo CFP (Ferroviário). Acha que manter a sua actividade como atleta poderá ajudar a entender melhor as necessidades e posições destes?

Sem dúvida.
Ajuda a preservar a ligação ao que é essencial para os praticantes: material, planos de água, acessos, alojamentos convenientes, etc., etc.
Enquanto nos mantemos confrontados directamente com essas coisas, valorizamo-las. Quando nos restringimos ao conforto da secretaria, pomo-nos a jeito para começar a achar que as preferências de quem rema são caprichos.
Além disso, remar é essencial para mantermos a humildade no reconhecimento dos nossos limites. Se certos dirigentes remassem, haveria muito menos arrogância e prepotência no Remo português.

Um Presidente é um líder de uma associação, que comanda uma estrutura onde cada um tem o seu papel. Qual o principal papel do Presidente da FPR?

O Presidente tem funções representativas que não pode descurar nem alienar, sob pena de cavar o desprestígio da modalidade e das colectividades e pessoas representadas.
Contudo, o Presidente tem, sobretudo, de ser um fiel da conformidade do trabalho federativo com as respectivas definições estratégicas. Para tal, precisa de dinamizar e coordenar com estreita proximidade a equipa federativa.
Como referi, a candidatura “Devolver o Remo aos Clubes” já mostrou que sabe funcionar como uma tripulação.
Connosco o Presidente não será um líder unipessoal. Haverá delegação de competências, pelouros, enquadramento por membros dos diversos corpos sociais do trabalho de comissões (que iremos constituir com os clubes e associações para abordar diversas questões do Remo).
Com esta forma de funcionar, a Federação verá muito aumentada a sua capacidade de intervenção.
Com a nossa eleição, o Remo deixará de ter a sua Federação manietada pela centralização na figura de um Presidente rodeado de vazio.

Quais os 3 pontos que considera como mais cruciais nas suas estratégias para as diferentes vertentes de remo de Formação, Lazer e Competição?

Entendendo por remo de “formação” o que diz respeito à iniciação de novos praticantes, começo por salientar que a angariação de uma nova e alargada base de praticantes é um dos nossos objectivos estratégicos. Para tal, são pontos mais importantes a existência de frotas adequadas (barcos de ensino, yolles, etc), instalações condignas (muitos clubes necessitam de ajuda para melhorar os seus postos náuticos) e treinadores capacitados para a captação e fixação de praticantes em iniciação, geralmente jovens.

No que respeita ao Remo de lazer, são pontos importantes a criação de um circuito nacional de Remo de turismo, o apoio à recuperação de embarcações com essa finalidade, a integração do equipamento para o Remo de turismo e de lazer nos programas de apetrechamento participados pela FPR.

Para a competição, torna-se fulcral que o calendário seja adaptado aos calendários escolares e que as regatas regionais se articulem com os objectivos nacionais e internacionais, tanto em número como na contribuição para a selecção de remadores para as provas de representação regional (substituindo testes de selecção regional); que o número de regatas seja optimizado, isto é, que se coordenem as organizações de modo a que não se mantenha a actual proliferação de provas que acaba por abastardar o espírito competitivo e degradar o nível de cada uma delas (aquilo que, na nossa candidatura, designamos por fazer menos regatas mas melhores regatas).

A selecção e Portugal deverão ter um modelo técnico, tendo esse modelo de ser adoptado pelos clubes?
De facto, pode considerar-se que, hoje em dia, muito do acervo técnico que foi desenvolvido graças aos trabalhos de técnicos e cientistas da fisiologia do esforço, da biomecânica, etc. constitui um modelo. Ou seja, um conjunto de conceitos e de formas de fazer, em grande medida já optimizados. Portanto, esse modelo ou, pelo menos, partes dele ganham em serem disseminados com uma certa dose de homogeneidade.
De resto, na “fluência” que é indispensável para manter a continuidade dos trabalhos, com os mesmos remadores, entre os clubes e a selecção, há inúmeras vantagens em que o dito modelo seja uniforme.
Todavia, se não houver variação não há inovação, não há progresso. Mesmo que a variação arrisque alguns erros, é preciso estimulá-la para continuar a garantir a evolução.
Cá está um bom assunto para que a Federação, por intermédio da sua Direcção Técnica, exerça um judicioso papel simultaneamente regulador e fertilizador da actividade original dos clubes.

Qual o plano desta FPR para a alta-competicao? Manter um grupo aberto durante todo o ciclo olímpico, onde ninguém tem lugar garantido? Ou isso é estratégia da responsabilidade do Director Desportivo?

O Remo português tem experimentado várias maneiras de formar a sua Selecção e há sempre opiniões a favor e contra.
Esta é uma matéria em que responsabilidade das decisões caberá à Direcção da Federação. A formação da opinião directiva não deixará, contudo, de se fundamentar nos contributos de técnicos, remadores e clubes e, é claro, no aconselhamento pelo Director Técnico Nacional, que será valorizado com o devido peso (esta é uma das competências inerentes à sua função).
Por isso, seria prematuro declarar já uma forma definitiva. Mesmo assim, posso avançar dois pontos constantes do manifesto de candidatura e já resultantes de um consenso das nossas opiniões com muitas que temos recolhido.
São eles que o acesso à Selecção Nacional deverá ser em regime aberto, com vários momentos de avaliação e em competição e confronto com outros candidatos e que deverá haver patamares de progressão, em que o sucesso num patamar seja um factor essencial e indispensável para a progressão para o patamar seguinte.

E como será o Corpo Técnico e a política da selecção nacional? Irá manter-se ou haverá alterações?

Tal como também consta do nosso manifesto, iremos colocar como condições fundamentais de para o funcionamento do corpo técnico que trabalhe em diálogo constante com as equipas técnicas dos clubes de origem dos remadores, que seja transparente, coerente e homogéneo no emprego dos critérios de selecção e que assuma claramente a responsabilidade pelos resultados.

A formação de treinadores pela FPR tem sido alvo de algumas criticas. Conhece o modelo de formação e considera adequado? Não deveria haver maior aposta na formação dos treinadores portugueses?

O processo de formação de treinadores tem sido do tipo “certificador de competências” por níveis, seguindo um paradigma profissionalizante. O modelo de transmissão de conhecimentos tem exigido a expressão das competências segundo a mais estrita fidelidade a directivas e cânones que, muitas vezes, estão desviados da realidade.
Por outro lado, pode-se alegar falta de informação e/ou transparência de alguns processos e lamentar o encerramento progressivo e obstinado em si própria, com resultados práticos muito limitados.
Não tenho qualquer dúvida de que aprioridade terá de ser para valorizar os treinadores portugueses, que serão sempre a base da actividade nacional, os fazedores da cultura técnica do remo nacional.
O sector carece de óbvias mudanças e permito-me mencionar que no nosso manifesto de candidatura se contêm numerosas propostas bem fundamentadas capazes de promover essa mudança.

Se vencer as eleições terá de continuar alguns projectos da actual direcção. Qual a sua opinião sobre a organização do Europeu de 2010 e o Centro de Alto Rendimento no Pocinho?

Que fique claro desde já que a nossa eleição não deixará de significar o cumprimento de todos os acordos institucionais que tenham sido firmados pelo anterior executivo.
Da nossa parte, tudo faremos para levar a cabo a organização do Europeu de 2010. Mas convém não esquecer que, neste como noutros projectos, a FPR não é o único nem provavelmente o parceiro mais determinante.
No que respeita ao CAR do Pocinho, acho muito interessantes que se criem factores de acolhimento para aproveitar as condições do plano de água. Será mais uma possibilidade para o Remo nacional e internacional. Do meu ponto de vista, quantos mais locais deste género, melhor.
O que não pode acontecer é que o Remo seja “tiranizado” pelo facto de existir um centro de alto rendimento no Pocinho. O próprio sucesso do CAR do Pocinho depende da explicação, ao Remo nacional, das vantagens de o utilizar quando adequado e não da criação de uma obrigação de para lá ir, que me parece que foi o que aconteceu até agora. Quando assim é, a criação de “anticorpos” é inevitável e a única coisa que se consegue é ganhar a antipatia do Remo para com o Pocinho. Julgo que é isso que a actual Direcção federativa tem conseguido.

Depois do Europeu de 2010 Portugal tem potencialidade e capacidade para organizar um CM?

Primeiro, vamos lá a organizar o Europeu. O resto, depois se verá.

Qual a sua opinião sobre o Laststroke? E que importância e posição considera ter no remo em Portugal?

Graficamente muito agradável. Incompreensivelmente actualizado (é que, para mim, é um mistério como conseguem estar tão “em cima” dos acontecimentos. O vosso staff deve ser enorme…).
Actualmente, é, sem dúvida, o blogue que melhor serve o Remo Português.

Leia o Manifesto da lista Devolver o Remo aos Clubes e visite o site da campanha.

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5 Comentarios em “Entrevista a João Oliveira”

  • Jorge Dinis comentou a 25 Janeiro, 2009, 23:09

    estou impressionado, pela positiva, com a atitude e seriedade deste candidato.
    penso que assim, é possivel trabalhar.
    um bem haja e que se dvolva o remo aos clubes!

  • Anonimo comentou a 26 Janeiro, 2009, 12:16

    [comentario eliminado devido ao anonimato desnecessario - sugestoes podem ser enviadas pelo formulario de contacto]

  • Ricardo França comentou a 27 Janeiro, 2009, 20:17

    Caro João,

    Para além das ideias e demais estratégias, o que mais aprecio é a sua disponibilidade para dialogar, o facto de estabelecer o compromisso em aproximar-se dos clubes e associações, e ainda a sua aposta num maior envolvimento com todos os agentes. Acredito que tal induzirá em mais comprometimento de todos, aumento as responsabilidades de todos nós (atletas, clubes, etc) para o desenvolvimento deste desporto que tanto gostamos.

    Força.

  • Carlos Albuquerque comentou a 17 Fevereiro, 2009, 16:30

    O Remo português de que me afastei há já longos anos, por contingências da vida, precisa urgentemente de quem o consiga unir, envolvendo todos, mas mesmo todos, os seus actores. Desse envolvimento ha´que ter o descernimento e a capacidade para alcançar maiores níves de rseponsabilidade que só se podem traduzir em ganhos efectivos. E o que são ganhos efectivos para a nossa modalidade? O aumento do número de praticantes, diversificação da prática, o aumento da qualidade nos estractos de alta competição, maior visibilidade, melhores condições para a prática.
    E tudo isto que vejo nas propostas do João Oliveira e companheiros. E mais que isso. Estou convicto que têm a capacidade para trbablharem nesse sentido. Se o alcançam? Estrou plenamente que sim , pelo menos a maior parte. O que já não seria mau, tendo em conta a estagnação a que se chegou.
    Abraços e o melhor para a minha modalidade!
    CA

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