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“Bem treinado vai dar um bom timoneiro”

Manuel Antonio

Manuel Antonio

Entrevistámos Manuel António Fernandes, actual responsável pela secção de remo do Real Clube Fluvial Portuense. Juntou-se ao RCFP desde muito cedo e representou as cores nacionais por várias vezes, com destque para a participação nos Jogos Olímpicos de 1996. Acompanhou os melhores momentos do RCFP e agora comanda a secção de remo, apresentando ideias novas para renovar o cluve e melhorar ainda mais a posição do clube a nível nacional.

Laststroke: Em primeiro, como começou a tua ligação ao remo e Fluvial? Desde cedo pensaste no remo pós-atleta?
Manuel António:
A minha ligação ao remo começou quando eu tinha 9 anos de idade. Num belo dia fui abordado por um treinador do Fluvial, sabendo que eu praticava luta greco-romana e que o clube tinha fechado esta actividade, perguntou-me se eu gostaria de remar. Disse que sim e nesse mesmo dia fui apresentado ao seccionista, agora meu amigo, que me disse “sim, sim… bem treinado vai dar um bom timoneiro”. Assim nasceu a minha paixão pelo Fluvial e pelo remo.

LT: O RCFP é um dos clubes mais emblemáticos do remo nacional, achas que falta algo?
MA:
Será necessário haver mais e melhor apoio, o estado entrega o dinheiro todo às federações, estas gastam da maneira que lhes dá mais jeito e têm estruturas muito pesadas. Quando chega a vez de atribuir algo aos clubes, porque são estes que têm o trabalho todo, já não têm dinheiro. Isto é de lamentar, temos que mudar esta politica.

LT: Sentes que o RCFP tem um papel especial no remo nacional?
MA:
O Fluvial é um dos clubes mais antigos de Portugal, que esteve sempre presente nos acontecimentos mais importantes da modalidade.

LT: Têm dominado o ranking nos nacionais e o ranking anual, mas tem-se tornado mais difícil ultimamente. Consideras que é por outros clubes estarem melhores, pelo RCFP se ter desleixado ou pelos critérios terem mudado?
MA:
Começando pelo fim da pergunta, gostava de ver alterada as regras do Ranking, no sentido de os clubes disputarem o Ranking nacional com qualidade e não só com a quantidade de atletas que cada clube inscreve. Com a situação actual, a luta pelo ranking serve unicamente para que os clubes gastem dinheiro, sem ter em conta a qualidade. De certa forma, a luta não chega a todos os clubes. Isto poderia ser alterado com a atribuição de uma pontuação mais significativa a equipas da final A com lugares do pódio. A posição do clube no ranking deste ano foi devida a vários factores como a não participação no C.N. Sprint de yolle nem no C.N. Sprint de shell, á saída do treinador, problemas financeiros e também porque não defendo que se recorra ao maior numero de atletas, treinados ou não, para ganhar seja o que for e como for. Ao longo destes últimos anos, o nível de qualidade do remo tem vindo a diminuir e o Fluvial também tem a sua quota-parte de culpa, por isso penso que temos que mudar o que achamos que não está bem.

LT: Este ano houve grandes mudanças na secção de remo, sendo a mais visível a saída do Germanov. A ligação do Germanov ao RCFP coincidiu com o domínio a nível nacional. Porquê esta saída e porquê agora?
MA:
A saída do Germanov deve-se à crise financeira do clube, devido ao prometido e não cumprido apoio estatal na ajuda da construção do novo complexo desportivo das piscinas, o que nos criou graves problemas financeiros. Em relação ao domínio do RCFP no ranking, a resposta está na questão anterior.

LT: Como ficará constituída a equipa técnica?
MA:
A equipa técnica será composta por quatro treinadores, sendo o treinador responsável o Eduardo Oliveira que todos conhecem, ficará responsável por toda a competição incidindo mais no escalão sénior. O David Cardoso ex-remador do clube e da selecção nacional apoia o treino nos seniores e nos juvenis. O José Guimarães será responsável pelo escalão júnior e escolinhas e a Paula Santos nos escalões de formação com a companhia do David Cardoso.

LT: Que outras mudanças irão ocorrer ou já ocorreram? E quais as prioridades a curto e médio prazo?
MA:
Para além da equipa técnica, a aposta passa pela qualidade. Temos que ter uma modalidade com credibilidade onde se respire organização e bem-estar para todos os praticantes, oferecendo condições quer ao nível de competição, lazer ou social. Pretendemos encher o clube com atletas a treinar com mais seriedade e ambição no treino e como consequência desse trabalho o sermos Campeões.

LT: E a longo prazo?
MA:
A médio e longo prazo, ter mais e melhores atletas na selecção nacional, contribuir para o enaltecer do remo nacional e internacional e o retomar um sonho interrompido pela actual Federação que nada ganhou com a sua teimosia -trabalhar um shell de quatro sem timoneiro para os jogos olímpicos com atletas do clube, num trabalho de parceria com a Federação e seus técnicos.

LT: Que impactos pensas que essas mudanças possam ter a nível do remo nacional?
MA:
Contribuir para melhorar o nível do remo nacional, influenciar os clubes a melhorarem o que tiverem a melhorar, obviamente no sentido de podermos obter mais com boa qualidade no remo nacional e uma selecção nacional mais competitiva.

LT: Embora o RCFP domine os rankings de pontos, tenha remadores que são constantemente Campeões Nacionais e representem a selecção, parecem faltar remadores de nível internacional e que se destaquem como no passado. Achas que poderia ser feito outro trabalho nesse sentido no RCFP?
MA:
O Fluvial sempre teve bons remadores que faziam a diferença quer a nível nacional e internacional, atletas que estavam sempre motivados e motivavam, atletas que serviam de referência para os mais novos pela maneira que se entregavam à modalidade. Nessa altura o ranking era uma consequência, era o clube que fornecia a selecção com mais atletas. Agora o remo no fluvial estava focado no nacional e no ranking nacional, muitas das vezes conseguido a todo o custo. Penso que o ranking nacional é um objectivo fácil para ser considerado objectivo, dai a politica se ter alterado. Queremos bons remadores que elevem o clube ao mais alto nível. Essa vai ser a nossa linha de orientação, mais e melhores.

LT: Sentes que a facilidade de ser Campeão Nacional e pertencer à selecção têm retirado aos remadores nacional a ambição de chegar realmente a outros patamares?
MA:
Em relação aos vários campeonatos nacionais e iguais é tão absurdo, banaliza a modalidade, pois os atletas não precisam de se esforçar muito para serem campeões nacionais ou entrar para a selecção nacional. Como consequência não temos atletas para representarem Portugal, apesar de acreditar que os remadores nacionais têm ambição e muito potencial. Apenas precisam de um corpo técnico credível com ideias de valor, num projecto ambicioso por parte da federação, para darem o salto que necessitamos.

LT: Terá o RCFP o objectivo de ter remadores realmente de alta-competição? Como o Pedro Fraga e Nuno Mendes?
MA:
Sim claro!O Fluvial tem neste momento bons atletas seniores que têm ainda uma palavra a dar no remo internacional. Atletas que subiram a seniores este ano, que com trabalho e dedicação atinjam os objectivos propostos. No escalão júnior temos boas revelações e no escalão de formação temos boas promessas.

LT: Consideras mais importante o RCFP ter um atleta que participe em todas as provas e seja sempre campeão nacional ou um atleta que tenha restrições em termos de participações nacionais mas seja um bom representante de Portugal internacionalmente?
MA:
Ou seja, clube ou selecção? O Fluvial apoiará todos os atletas que pretendam o nível mais alto (selecção nacional), para os quais tenha por parte da Federação um projecto credível com um corpo técnico capaz. Isso é prestigiante para qualquer clube, o remo internacional pode e deve conciliar os vários interesses. Se não for possível lutarei sempre pelo objectivo maior.

LT: O RCFP tem sido um dos contestatários à recente direcção da FPR. Concordas com o actual calendário competitivo (5 Campeonatos Nacionais) ou era mais benéfico o antigo (2 Campeonatos Nacionais)? Porquê?
MA:
Sou a favor de um calendário lógico e plausível, coisas que esta federação logicamente não sabe o que significa. Sou a favor que se eleve os padrões e qualidade nos campeonatos nacionais. Para isso é necessário fins-de-semana para se treinar, é nos fins-de-semana que os atletas fazem mais quilómetros e melhoram as suas performances.
A minha sugestão consiste na realização de um campeonato nacional no final de cada ciclo de treino. No final da época de fundo se marque o acontecimento com o Campeonato Nacional de fundo – regata de longa distancia e para determinados barcos.
No final de ciclo de velocidade se organize o campeonato nacional de velocidade a meio do mês de Junho para as categorias de Juniores e seniores pesos ligeiros, com eliminatórias no sábado e finais no domingo. Com este Campeonato passaremos a ter maior competitividade, maior desempenho dos atletas e regatas mais competitivas.
No final do mês de Junho a realização do campeonato nacional de absolutos no mesmo molde do anterior. Assim os ligeiros recuperam das regatas em que participaram, estabilizam o peso e têm duas semanas para se adaptarem ao barcos em que irão participar. Em relação aos juniores que sobem a seniores nesse ano, também estarão aptos para darem o seu melhor. Penso que esta sugestão é a melhor para o remo nacional, para elevar a qualidade do remo em Portugal.

LT: Já se avizinham novos projectos para o remo nacional. Falamos da candidatura do João Oliveira, com apoios de vários clubes. Apoias esta candidatura?
MA:
Apoiarei incondicionalmente. Vai simplificar o que a actual federação complicou com a implementação de uma política simplista. Pois o que se tinha que inventar já está inventado, não precisamos de complicar. O mais simples é o mais bonito e mais eficaz. Temos que trabalhar e parar de criar sistemas complicados que só servem para camuflar a mediocridade e justificar o injustificável.

LT: Onde vês o remo nacional daqui a 2anos? E daqui a 4?
MA:
Se esta federação perder as eleições, vejo a modalidade daqui a dois anos a evoluir com uma vertente nova e eficaz com propostas no sentido da qualidade, sem burocracias e sem rodeios. A quatro anos nos Jogos Olímpicos com varias equipas e com pelo menos uma na final A e depois logo se vê.

LT: O que achas que falta ao remo português para que seja criada uma selecção com os pergaminhos do Pedro e do Nuno?
MA:
O que foi feito com eles.Credibilidade – Simplicidade – Qualidade – Trabalho

LT: Onde vês o RCFP daqui a 4 anos?
MA:
No lugar que sempre ocupou no remo nacional e nos eventos de maior relevo.

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1 Comentário em ““Bem treinado vai dar um bom timoneiro””

  1. NdR diz:

    Parabéns pela oportunidade da entrevista, foste mais rápido do que nós. Há que saber estar nas vitórias e nas derrotas.
    Espero ainda que este sistema de registo estimule o debate construtivo sobre o estado da modalidade. Pela nossa parte, vamos tentar marcar uma presença mais assídua nos comentários.

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