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Perspectivas de um treinador de remo adaptado na classe A1x

Abordo este tema em 5 capítulos:

 1 Introdução

Primeiro, temos de saber quais as condições para ser elegível para esta categoria. As regras da FISA são bastante claras: Paralisia Cerebral (C4), Prejuízo Neurológico T12 ou T10 incompleto e por fim deficiência funcional do
musculo recto abdominal. Em termos práticos qualquer atleta que não tenha nenhum controle da cintura para baixo, que não seja capaz de se equilibrar sobre um slide, qualquer atleta que  com cerca de 20 graus
de inclinação não consiga manter o seu equilíbrio. Dou o exemplo do que se passou comigo. Numa travagem um pouco mais brusca enquanto guiava, o atleta sentado ao meu lado e mesmo com cinto teve que por as mãos no tablier para manter o controle do tronco. A maioria dos atletas
presentes neste Campeonato do mundo cabiam na primeira categoria, ou
seja, T12 ou T10 incompletos ou ainda menos funcionais, caso do skiffista Inglês
- um T5. A classificação é feita por um painel constituído por treinadores e médicos, baseando a sua avaliação num
teste de mobilidade (Bench test) no ergometro (equilíbrio e
funcionalidade) e por fim na observação no barco (técnica), podendo ser
uma classificação provisória (caso degenerativo) ou confirmada.

2 Técnica e fisiologia

 Começando pela fisiologia destes atletas temos que ter em conta as
especialidades inerentes. A massa muscular é menor, o que tem diversas
implicações. As alterações musculo esqueléticas levam a uma diminuição
funcional, que por sua vez poderá levar a complicações nas funções
renais, cardíacas e pulmonares. Interessante neste aspecto o trabalho
efectuado pelo Dr. Dries Hettinga (http://www.fesrowing.org/index.html) com a utilização de impulsos eléctricos nos músculos sobre os quais o atleta não tem nenhuma funcionalidade. Este projecto chegou já a algumas conclusões interessantes, como aumento do VO2 máximo. O
melhoramento da condição física geral ainda está por provar a nível
cientifico, embora a nível prático parece-me que se faz notar. Alguns
atletas têm alguma dificuldade em adaptar-se a este programa por
complicações e reacções às cargas eléctricas impostas (na maioria dos
casos são luxações nas cochas, resultado dos pequenos choques). Os
benefícios da actividade física nestes casos são também notados a
longo prazo, servindo como prevenção para possíveis futuras
complicações cardíacas .

Quanto
à técnica, esta é um autêntico desafio. A remada é deveras curta, os
músculos implicados são menos e a coordenação pode ser um problema,
especialmente a simetria de movimentos. O trabalho da pá é paralelo ao
barco, ou seja mais eficaz que no remo olímpico. Em conversa com um
dos elementos da FISA, parte da equipa que fazia um estudo relacionado
com as afinações de alguns dos barcos em competição no Campeonato do
Mundo (estudo esse apresentado no ultimo Congresso de treinadores),este
dizia-me que é essencial ter o atleta mais próximo do trabalho da pá,
ou seja a distância entre o tronco no final e uma linha imaginária
entre as duas forquetas. Assim sendo, o trabalho e o arco que a pá
descreve teria lugar nos ângulos mais efectivos para a propulsão do
barco. Quanto aos músculos envolvidos, desenvolvemos um trabalho na
estabilização dos ombros, especialmente no skifista Inglês com menos
funcionalidade. Algum trabalho feito com bandas elásticas (muito
utilizadas em terapia), percepção de movimentos com objectivo de um
melhor controlo de movimentos e por fim numa simetria dos mesmo. De
notar que neste trabalho de estabilização não efectuamos só exercícios
visando o ombro mas muito mais os músculos envolventes, em especial o
rombóide maior com a finalidade de um deslocamento mais horizontal dos
ombros e um melhor controlo das mãos. Já este ano, no caso da skifista
Polaca que também trabalha connosco, sendo uma T12 começamos a efectuar
algum trabalho na zona abdominal com a finalidade de conseguir um
maior controlo e comprimento na colocação da pá. 

 

3 Equipamento

Ainda estamos numa fase muito precoce e isso é notável em especial no
equipamento utilizado. Os barcos são bastante curtos com cerca de 4m,
são equipados com dois flutuadores e o sistema de conexão dos assentos
ao barco são bastante básicos. Os flutuadores são tudo menos
hidrodinâmicos, sendo um bom modo dos skifista tomarem um duche em
cada treino ou regata que efectuam. No entanto, tenho a certeza que
este é só uma fase pela qual todos os desportos passaram, estando
convicto que a situação será diferente depois dos Parolímpicos em Pequim. Outra questão em fase de desenvolvimento são os remos em si. Este ano optei por uns remos bastante curtos no caso
da skifista Polaca(2,80m) com um entreixo de 1,64 e uma alavanca de
78. A aceleração dentro de água pareceu-me bastante consistente mas
contínuo convencido que remos ainda mais curtos seriam mais efectivos.
A outra questão é o formato da pá, será este o melhor formato para uma
remada que é muito mais propulsiva? E por fim a elasticidade dos
mesmos, remos flexíveis ou rígidos? São perguntas às quais certamente
alguns mais académicos do que eu se irão debruçar nos próximos anos.

4. Pedagogia

Aqui surgem algumas especificidades, que entre estudos e experiência são
essenciais para a formação de uma base de treino. Todos os atletas com
que trabalho nesta classe estão nesta situação devido a acidentes de
viação que tiveram lugar à mais de 5 anos. Nestes casos alguns dos
aspectos práticos são mais fáceis de lidar. Exemplo disso é o domínio
da cadeira de rodas, o processo de transferir-se da cadeira de rodas
para uma maquina de musculação ou para o barco, guiar um carro
ou utilizar os transportes públicos, ou seja um maior grau de
independência.

A maioria destes casos com os quais trabalhei nos últimos 2 anos são
bastante abertos a falar da sua condição, das dificuldades inerentes
e por vezes das situações cómicas que lhes sucedem no dia
a dia. A auto-imagem e auto-confiança estão sempre presentes, sendo
que o primeiro passo é o de criar um ambiente propicio ao convívio
social.

A organização de “open days” são iniciativas que julgo serem muito
positivas. Este dia é um mix entre convívio e a oferta de uma nova
experiência: Remo. Algumas das pessoas que surgem neste dia estão
ainda numa fase de recuperação da sua auto-imagem e em especial da sua
auto-confiança. O remo pode ser neste caso um pequeno passo, ou quem
sabe o passo decisivo nesse processo.

 

 

Mas o convívio leva-nos ao próximo passo a inclusão social, que é um assunto
que nos afecta a todos nós, onde é que pertencemos, onde é que nos
encontramos bem. Pois aqui não fugimos à regra, o remo aqui mais uma
vez surge na sua vertente mais social. Mas desde 2002 surgiu uma nova
realidade o remo de alta competição. O que faz com que passemos de uma
vertente social para uma mais competitiva, onde a prioridade é formar
um atleta, onde o resultado é o objectivo e não tanto a questão social
ou de inclusão. A minha experiência pessoal leva a crer que neste caso
depende muito da experiência desportiva de com quem se trabalha. Se o
atleta tem uma experiência desportiva de alto rendimento noutro
desporto Parolimpico ou anterior a deficiência facilita a trabalho do
treinador pois já temos perante nós um atleta. Se não for esse o caso
a primeira etapa é a criação de rotinas em torno do treino. No caso
do skiffista Inglês este foi um processo longo, especialmente por
falta de conhecimento. É necessária algum bom senso nesta fase,
especialmente se o background do treinador é o remo olímpico e não o
parolímpico, é em conclusão a formação de um atleta, para a qual é
essencial a contribuição do treinador.

Uma
vez passada esta fase, temos um verdadeiro atleta onde única
preocupação é o desenvolvimento da potencialidade do mesmo. É de notar
que neste momento é a capacidade o ponto
fulcral, em vez da
incapacidade, este é o grande passo do ponto de vista do remador
adaptado, a passagem desta fronteira entre a auto-imagem de
incapacidade para uma imagem de potencialidade e habilidade e por fim
de acreditar nas suas capacidades com a finalidade de atingir um
resultado.

 

5. Conclusão

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Caminhamos no remo adaptado na classe A para um nível que se aproxima
mais da definição de atleta. Neste momento já temos dois remadores que
estão nesse nível, falo dos skiffistas Australiano, campeão do mundo e
do skiffista Americano, com medalha de prata este ano, com mais de 25
anos de experiência. Certamente com  o aumento do nível competitivo
outros surgirão.

Também
julgo que deve-se trabalhar em conjunção com outros desportos
parolímpicos, com mais experiência neste campo e que poderão ser
bastante úteis na contribuição para novas ideias no planeamento e
programação de treinos. O link com a equipas médicas e em especial
fisioterapeutas é essencial, cada atleta tem as suas especificidades
que é preciso ter em conta.

Tirando as especificidades do remo adaptado e desta classe em
especial, não se trata mais de preparar um atleta para uma competição
e de ser mais um instrumento no caminho para um objectivo final.

Dica do mês



Ainda não comprei, mas já com algumas criticas bastantes positivas de outros treinadores; Estou a falar do “
Row
Coach Media Interactive CD series” 
autoria do treinador principal da equipa de pesados do EUA. Disponivel em www.row2k.com

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